O gato, os livros e os labirintos da travessia
- Karina Lima Juremeira
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- 21 de jun.
- 3 min de leitura

Li O Gato que Amava Livros, de Sosuke Natsukawa, durante a viagem do Alma Literária para Paris e Amsterdã. Talvez não tenha sido uma coincidência. Viajar é atravessar fronteiras externas; ler, atravessar fronteiras internas. E o livro fala justamente disso: das travessias que somos obrigados a fazer quando aquilo que sustentava nossa vida desaparece.
O protagonista é um jovem estudante que perdeu os pais ainda criança e foi criado pelo avô, dono de uma pequena livraria de livros usados. Quando o avô morre, ele se vê diante de um vazio. A tia lhe oferece uma nova casa, uma nova vida, um novo caminho. Mas o que fazer quando o mundo continua girando e nós ainda estamos tentando compreender quem somos sem aqueles que nos trouxeram até aqui?
É então que surge um gato.
Como acontece nas melhores histórias, o gato não é apenas um gato. Ele é guia, mensageiro, mediador entre mundos. Ele conduz o jovem por uma série de labirintos onde livros precisam ser resgatados. Em uma leitura literal, trata-se da recuperação dos livros. Em uma leitura simbólica, trata-se da recuperação de algo muito mais precioso: a própria alma.
Enquanto acompanhava aquelas jornadas, não conseguia deixar de pensar no grupo Alma Literária.
Em determinado momento, o livro apresenta diferentes formas de violência contra a leitura. Há aqueles que acumulam livros sem jamais lê-los. Há aqueles que resumem obras complexas até transformá-las em fragmentos sem vida. Há aqueles que reduzem a literatura a um produto rápido, simples e facilmente consumível.
Isso me levou a refletir sobre um fenômeno que encontro frequentemente nos grupos de leitura. Muitas pessoas demonstram resistência diante de livros extensos, densos ou intelectualmente desafiadores. Preferem narrativas leves, rápidas, que não exijam tanto tempo ou esforço.
Não há nada de errado com livros leves. Nem toda leitura precisa ser uma descida às profundezas do inconsciente. Mas comecei a me perguntar o que acontece quando passamos a buscar apenas aquilo que não nos desafia.
A literatura, assim como a psicoterapia, também pode ser um encontro com o desconhecido. Algumas obras nos oferecem conforto; outras nos transformam. E transformação raramente é confortável.
Confesso que, por vezes, sinto que estou tentando conduzir algumas pessoas em direção à profundidade enquanto elas me puxam para a superfície. Como se estivéssemos disputando a direção da travessia.
Mas talvez essa seja uma falsa oposição.
Talvez o papel de quem coordena um grupo de leitura não seja arrastar ninguém para águas profundas. Talvez seja apenas criar condições para que cada pessoa descubra, em seu próprio tempo, que existe um oceano além da margem.
Foi pensando nisso que encontrei uma solução simples para o grupo: cada participante indicará um livro e faremos um sorteio. O livro sorteado será lido por todos, independentemente de seu tamanho, estilo ou complexidade.
A proposta não é impor gostos. É ampliar horizontes.
Porque crescer como leitor significa, muitas vezes, aceitar caminhar por territórios que não escolheríamos espontaneamente.
No fundo, acredito que essa também seja a grande mensagem do livro.
A história parece falar sobre livrarias e livros, mas fala principalmente sobre finitude. Sobre a necessidade de continuar vivendo quando aquilo que era familiar desaparece. Sobre encontrar novos caminhos sem abandonar nossas raízes.
O gato me parece um símbolo dessa transformação. Não apenas da independência em relação às figuras de apego, mas também da autonomia diante das expectativas coletivas. Ele conduz o protagonista para fora de uma identidade herdada e em direção a uma identidade construída.
Mas ninguém realiza essa travessia ignorando o passado.
Só podemos nos tornar quem somos quando reconhecemos quem fomos.
Só podemos escolher para onde vamos quando compreendemos de onde viemos.
Talvez por isso os livros sejam tão importantes.
Eles não nos oferecem apenas histórias.
Oferecem espelhos.
E, às vezes, quando temos coragem de atravessar seus labirintos, encontramos algo que julgávamos perdido.
Encontramos a nós mesmos.
Com carinho
Karina ; )



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