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As Amendoeiras: quando algo floresce, algo também precisa morrer





Há pinturas que parecem nascer de um instante. Outras parecem nascer de uma travessia.

Amendoeiras em Flor, de Vincent van Gogh, pertence ao segundo grupo.

A obra foi pintada em fevereiro de 1890 como presente para o sobrinho recém-nascido, filho de Theo e Jo. A gestação havia sido cercada de preocupações e o parto foi difícil. Quando recebeu a notícia do nascimento, Vincent escreveu à irmã:


"Pus-me a pintar para ele nos últimos dias uma grande tela azul-celeste sobre a qual se destacam ramos floridos."


É uma frase simples, mas profundamente simbólica.

Enquanto uma criança chegava ao mundo, Vincent respondia à vida da maneira que lhe era mais própria: criando uma imagem.

Pouco depois, em outra carta, ele escreve a Theo:








"A última tela dos galhos em flor, você verá. Era talvez o que já fiz mais pacientemente e melhor, pintada com calma e com uma maior segurança na pincelada."

Essa observação sempre me chama a atenção.


Estamos acostumados a olhar para Van Gogh pela intensidade de seus girassóis, pela turbulência dos céus ou pelo movimento inquieto de suas pinceladas. Mas, diante das amendoeiras, encontramos outra qualidade.


Há silêncio.

Há delicadeza.

Há uma calma que parece rara em sua obra.

Talvez porque, naquele momento, a vida lhe apresentasse uma imagem diferente: o nascimento.


Na psicologia analítica, nascimento nunca diz respeito apenas à chegada de uma criança.

Toda passagem importante inaugura algo e, ao mesmo tempo, encerra outra forma de existir.

Quando algo floresce, algo também precisa morrer.



O nascimento de Vincent Willem transformava a vida de Theo e Jo, mas também reorganizava toda a família. Novos vínculos surgiam, novos lugares precisavam ser ocupados. Essa é uma leitura simbólica que a obra nos convida a fazer, mais do que uma explicação biográfica.


É impossível florescer sem deixar para trás alguma versão de nós mesmos.

Talvez por isso essa pintura continue nos emocionando.

Ela fala menos sobre uma árvore e mais sobre uma experiência universal.


Quem nunca viveu um momento em que percebeu que uma nova vida começava — ainda que nenhuma criança tivesse nascido?


Uma nova profissão.

Um casamento.

Um luto.

Uma mudança de cidade.

O início de uma análise.

Cada florescimento exige uma pequena morte.


No Livro Vermelho, Jung escreve sobre a imagem da criança divina como aquilo que permanece eternamente jovem, criador e portador de futuro.


Não é apenas uma criança concreta.

É uma possibilidade de renovação da própria alma.

Ao olhar para Amendoeiras em Flor, penso justamente nisso.

Os galhos ainda são finos.

As flores são delicadas.


Nada ali possui a imponência de um carvalho.

A força da pintura está exatamente em sua fragilidade.

Ela não representa uma vida consolidada.

Representa uma vida começando.


Há outra carta desse período que também me acompanha.

Falando sobre seus retratos, Vincent escreve:

"Sempre acreditei que, por meio dos retratos, aprendemos a refletir... eles permanecem conosco como uma lembrança por muito tempo."

Mais do que registrar rostos, ele queria pintar presenças.

Talvez seja por isso que suas obras ainda nos olhem de volta.



Em outra carta, Vincent revela um desejo que atravessou o tempo:

"Gostaria de fazer retratos que daqui a um século surgissem para as pessoas de então como aparições."

Ele não buscava apenas a semelhança fotográfica.

Queria alcançar aquilo que permanece vivo quando o tempo passa: a expressão apaixonada da alma.

Talvez, sem saber, intuísse que sua verdadeira herança não seriam apenas as telas, mas as imagens psíquicas que continuariam habitando outras pessoas.



Mais de um século depois, suas amendoeiras ainda florescem dentro de nós.

Não porque contem a história de Vincent.

Mas porque contam, silenciosamente, a nossa.











Talvez seja por isso que, diante dessa pintura, a pergunta não seja apenas "o que Van Gogh quis dizer?".

Talvez a pergunta seja outra.


O que, em mim, está tentando florescer?

E, para que isso aconteça,


o que precisa, finalmente, ser deixado para trás?



Com carinho

Karina Lima Juremeira


 
 
 

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