O dia em que - Nos tornamos conscientes
- Karina Lima Juremeira
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- 26 de abr.
- 2 min de leitura
Relatam os mais antigos que houve uma época em que o ser humano não tinha consciência de sua própria humanidade.

Não havia espelho, nem nome, nem fronteira entre dentro e fora. O mundo não era algo a ser visto, mas algo a ser vivido como extensão do próprio ser. Era o tempo da plenitude silenciosa, quando existir bastava e não havia pergunta alguma que exigisse resposta. Os gregos chamaram esse tempo de Idade do Ouro. Não havia trabalho, nem dor, nem separação entre humanos e deuses. A terra dava tudo espontaneamente, como uma mãe que ainda não aprendera a negar. Vivia-se como quem respira: sem esforço, sem consciência de si.
Mas esse mesmo mistério aparece em outras histórias.
Conta-se que, no princípio, o ser humano era redondo. Completo. Inteiro. Não havia falta, não havia desejo — pois desejar é reconhecer uma ausência, e ali não faltava nada. Esses seres eram tão plenos que ousaram se comparar aos deuses. E foi então que foram partidos ao meio. Desde então, cada metade vagueia, buscando algo que nunca chega a nomear completamente. Chamamos isso de amor, de busca, de inquietação — mas talvez seja apenas a memória distante de uma unidade perdida.
E há também um jardim.
Um jardim onde tudo era permitido, exceto saber. Ali, o homem caminhava sem consciência da própria nudez. Não havia vergonha porque não havia separação — nem entre ele e o outro, nem entre ele e o divino. Mas bastou provar do fruto do conhecimento para que tudo mudasse. Os olhos se abriram. E, com isso, veio a distância. O que antes era unidade tornou-se relação. O que era natural tornou-se escolha. O que era eterno passou a ser finito. E o homem, expulso do jardim, passou a carregar dentro de si algo estranho: a consciência.
Desde então, ele vive entre dois mundos.
Há momentos em que se sente novamente inteiro — ao contemplar a beleza, ao amar profundamente, ao se perder em algo maior que si. Nesses instantes, algo da antiga totalidade retorna, como um eco distante da Idade do Ouro. Mas há também momentos de ruptura — quando percebe seus limites, sua fragilidade, sua solidão. Quando descobre que não é o centro do mundo, nem senhor do destino. Quando a vida impõe medida onde antes havia apenas expansão.
Talvez seja esse o destino humano: oscilar.
Entre o paraíso e a queda. Entre a totalidade e a separação.Entre o esquecimento e a lembrança. E talvez — apenas talvez — o sentido dessa jornada não esteja em retornar ao que fomos, mas em aprender a sustentar essa tensão. Em reconhecer que a unidade não foi perdida por completo, mas transformada.
Pois o jardim não desapareceu. Ele apenas deixou de ser um lugar —para se tornar uma tarefa.



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