Quando os gatos não desaparecem
- Karina Lima Juremeira
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- 13 de mar.
- 2 min de leitura

Terminei de ler Se os gatos desaparecessem do mundo, de Genki Kawamura, um presente, carregado de amor. Finalizei com aquela sensação rara de quando um livro encontra a gente no lugar exato da vida em que estamos. Não foi apenas uma leitura. Foi quase um espelho.
Logo no início a história me transporta para outra dimensão já vivida, a finitude toca o inconsciente coletivo. Quando soube que teria que fazer a cirurgia para clipagem de um aneurisma, algo muito estranho aconteceu dentro de mim: comecei a querer deixar tudo arrumado. Como quem organiza a casa antes de viajar. Mas não era uma viagem qualquer. Era aquela possibilidade silenciosa que a gente evita nomear.
Eu queria deixar bons rastros.
Pensava nas coisas que não fiz, no livro que não escrevi, nas palavras que talvez não tivesse tempo de dizer. E havia também um desejo muito humano: que alguém lembrasse de mim quando eu não estivesse mais aqui. Não queria desaparecer do mundo como se nunca tivesse existido.
No livro, há uma história sobre um chapéu de pedregulho. Pensei que talvez eu tenha usado um desses por muito tempo um chapéu duro, pesado, feito para proteger. Mas quando nos vemos diante da própria fragilidade, esse chapéu começa a perder o sentido. Naquele momento, tudo o que eu queria era algo muito mais simples: amor. Queria que as pessoas estivessem perto. Queria sentir que eu não estava sozinha.
Talvez a proximidade da morte faça isso com a gente. Ela retira as camadas desnecessárias.
Outra coisa que o livro diz é que, para ganhar algo, é preciso perder outra coisa. Escolher é sempre também abrir mão. E naquele momento da minha vida eu percebi quantas escolhas já tinham sido feitas, quantos caminhos tinham sido deixados para trás. Alguns ainda doem um pouco. Outros eu entendo melhor agora.
Existe um pensamento alquímico que diz que o fogo revela o que é verdadeiro. Na calcinatio, o que é falso se desfaz e o que tem substância permanece. O ouro de tolo vira cinza. O que resiste ao fogo é o que importa.
Acho que aquele período foi um pouco assim para mim.
Depois da cirurgia, algumas coisas perderam completamente a importância. Pequenas preocupações que antes roubariam minha paz simplesmente deixaram de ter peso. Em compensação, outras cresceram de um jeito inesperado.
Uma delas foi o amor por um pequeno animal.
Héstia entrou na minha vida nesse mesmo período. E eu descobri um tipo de amor que nunca tinha experimentado antes. Um amor simples, cotidiano, silencioso. Um amor que cabe numa presença tranquila no sofá, num olhar felino que parece entender mais do que deveria.
Curioso como às vezes o essencial chega assim: pequeno, macio e com bigodes.
Também comecei a pintar mais. As imagens vinham de sonhos ou de impulsos difíceis de explicar. Muitas vezes eu não sabia exatamente o que estava pintando só sabia que precisava pintar. Era como se, através das cores e das formas, eu pudesse me ver do avesso.
Talvez seja isso que a proximidade da finitude faz com a gente: reorganiza o olhar.
Descobri que algumas coisas podem ir embora. Outras não. Algumas resistem ao fogo.
E, curiosamente, os gatos não desapareceram do meu mundo.
Pelo contrário. Eles me encontraram ou eu os encontrei.
Karina Juremeira



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