Reflexões - O Reino que procuramos do lado de fora
Atualizado: 5 de out.

Talvez uma das perguntas mais difíceis que alguém possa fazer seja:
quem é Jesus?
Não porque faltem respostas.
Pelo contrário. Há respostas demais.
Para alguns, é o filho de Deus. Para outros, um profeta, um mestre, um revolucionário. Há quem o veja como salvador, como personagem histórico, como símbolo, como mito. Há ainda aqueles que cresceram ouvindo seu nome antes mesmo de compreender o que ele significava.
E talvez exista também o Jesus que cada um carrega silenciosamente dentro de si.
Foi pensando nisso que comecei a ler Roberto Rosas Fernandes e sua proposta de olhar para o Novo Testamento através da Psicologia Profunda. Não para decidir se uma interpretação religiosa está certa ou errada, mas para fazer uma pergunta diferente:
o que acontece dentro de nós quando encontramos a imagem de Cristo?
Essa pergunta muda tudo. Porque, quando olhamos para uma narrativa religiosa apenas como uma história que aconteceu há dois mil anos, podemos perguntar o que aconteceu naquela época. Mas quando olhamos para ela como símbolo, começamos a perguntar:
o que isso tem a ver comigo?
É uma mudança pequena na pergunta, mas enorme na experiência.
Na nossa cultura, Cristo está em toda parte.
Está nas igrejas, nas pinturas, nos presépios, nas festas, nos funerais, nas músicas, nos livros, nas famílias. Está também na maneira como aprendemos a pensar sobre culpa, perdão, sacrifício, sofrimento, amor e redenção.
Mesmo quem não se considera religioso pode ter crescido cercado por essas imagens.
Elas fazem parte do nosso imaginário.
E as imagens que nos acompanham desde cedo não são completamente neutras. Elas ajudam a formar a maneira como entendemos o mundo e também a nós mesmos.
Uma criança pode olhar para Jesus e enxergar apenas uma figura luminosa, perfeita, distante, quase completamente divina.
Mas talvez a vida adulta nos convide a encontrar outro Cristo.
Um Cristo que sofre.
Que sente angústia.
Que questiona.
Que rompe com as autoridades.
Que se aproxima daqueles que estavam à margem.
Que experimenta abandono.
Que morre.
Um Cristo que, de alguma maneira, vai deixando de ser apenas uma figura colocada diante de nós e começa a conversar com aquilo que existe dentro de nós.
É aqui que a Psicologia Analítica nos oferece uma palavra importante: símbolo.
Símbolo não é simplesmente uma coisa que representa outra.
Um símbolo é uma imagem que parece guardar mais significado do que conseguimos explicar imediatamente.
Um sonho é assim.
Uma história pode ser assim.
Uma obra de arte.
Um mito.
Uma experiência religiosa.
Você olha para aquilo e sente que existe alguma coisa ali, mas não consegue esgotá-la em uma definição.
É como se a imagem soubesse mais do que nós.
E talvez seja por isso que certas histórias atravessam séculos.
Porque elas continuam dizendo alguma coisa para pessoas que nasceram milhares de anos depois de terem sido contadas.
Rosas aproxima a imagem de Cristo de uma ideia central da Psicologia Analítica: o Self.
Em termos simples, podemos pensar no Self como uma espécie de centro mais profundo da personalidade — uma totalidade que é maior do que aquilo que conhecemos conscientemente sobre nós mesmos.
O nosso ego é aquilo que reconhecemos como “eu”.
Meu nome.
Minha profissão.
Minha história.
Minhas escolhas.
Aquilo que acredito ser.
Mas nós somos maiores do que aquilo que sabemos sobre nós mesmos.
Existe uma parte de nós que desconhecemos.
Há desejos que não admitimos, sentimentos que escondemos, medos que não compreendemos, capacidades que ainda não desenvolvemos. Há também uma dimensão profunda que parece nos conduzir em direção a uma vida mais inteira.
Jung chamou esse movimento de individuação.
E individuação não significa tornar-se uma pessoa perfeita.
Talvez seja justamente o contrário.
É tornar-se cada vez mais capaz de reconhecer quem somos em nossa totalidade.
Inclusive aquilo que não gostaríamos de encontrar.
Porque existe uma armadilha quando pensamos em espiritualidade:
a de acreditar que precisamos eliminar de nós tudo aquilo que consideramos feio para nos aproximarmos do sagrado.
Precisamos ser bons.
Calmos.
Generosos.
Amorosos.
Puros.
E tudo aquilo que contradiz essa imagem vai sendo empurrado para algum lugar escuro da personalidade.
É aí que Jung nos apresenta a ideia de sombra.
A sombra não é simplesmente aquilo que é ruim em nós.
É também tudo aquilo que não conseguimos reconhecer como parte de nós.
Nossa agressividade.
Nossa inveja.
Nossa sexualidade.
Nossa ambição.
Nossa fragilidade.
Nossa necessidade de reconhecimento.
Às vezes até nossa força.
Tudo aquilo que não combina com a imagem que construímos de nós mesmos pode acabar na sombra.
Mas aquilo que é colocado na sombra não desaparece.
Continua vivendo.
E talvez uma espiritualidade madura não seja aquela que elimina a sombra, mas aquela que consegue
olhá-la sem ser dominada por ela.
Isso me fez pensar em uma passagem muito conhecida do Evangelho:
Jesus fala sobre a prudência da serpente e a simplicidade da pomba.
E fiquei pensando em como essa imagem é diferente da ideia de que precisamos escolher apenas um lado.
Talvez seja preciso ter a delicadeza da pomba e, ao mesmo tempo, a inteligência da serpente.
Talvez maturidade seja justamente conseguir sustentar aquilo que parece contraditório.
Razão e sentimento.
Corpo e espírito.
Força e delicadeza.
Autonomia e vínculo.
Eu e o outro.
Consciência e inconsciente.
Não se trata de escolher um lado e destruir o outro.
Trata-se de aprender a conversar com os dois.
E então chegamos a uma das imagens mais bonitas discutidas por Rosas:
o Reino está dentro e fora.
Eu gosto dessa frase porque ela desmonta uma ideia muito comum.
Passamos boa parte da vida procurando.
Procuramos felicidade.
Reconhecimento.
Amor.
Sucesso.
Segurança.
Às vezes procuramos até a nós mesmos.
Como se estivéssemos sempre em algum lugar diferente daquele em que estamos.
Como se a vida verdadeira fosse começar depois.
Depois que eu mudar.
Depois que eu ganhar mais.
Depois que aquela pessoa me amar.
Depois que eu resolver determinado problema.
Depois que eu me tornar quem acredito que deveria ser.
E talvez exista algo paradoxal na ideia do Reino.
Talvez aquilo que procuramos não esteja simplesmente em algum lugar distante.
Talvez esteja também aqui.
Dentro.
Mas não no sentido de que “eu já tenho todas as respostas”.
Muito pelo contrário.
Está dentro justamente porque precisamos fazer uma viagem para encontrar aquilo que ainda não conhecemos em nós.
Isso me lembra uma história conhecida: O Alquimista, de Paulo Coelho.
O personagem parte em busca de um tesouro.
Viaja.
Encontra pessoas.
Enfrenta perigos.
Muda.
E, no final, percebe que o tesouro estava relacionado ao próprio lugar de onde havia partido.
A viagem não foi inútil.
Era justamente a viagem que o tornaria capaz de reconhecer o tesouro.
Talvez a vida interior seja assim.
Não basta dizer:
“Está tudo dentro de mim.”
É preciso caminhar.
É preciso viver.
Amar.
Perder.
Errar.
Sofrer.
Sonhar.
Encontrar pessoas.
Despedir-se delas.
Entrar em contato com aquilo que não queríamos ver.
Porque algumas coisas só se tornam visíveis depois que amadurecemos o suficiente para reconhecê-las.
Talvez seja por isso que Cristo possa funcionar como um espelho.
Olho para ele e encontro uma imagem fora de mim.
Mas alguma coisa naquela imagem começa a se mover dentro.
O Cristo que perdoa.
O Cristo que enfrenta o poder.
O Cristo que sofre.
O Cristo que ama.
O Cristo que rompe.
O Cristo que morre.
O Cristo que ressuscita.
E então talvez a pergunta deixe de ser:
“Quem foi Jesus?”
E passe a ser:
“O que essa imagem de Jesus desperta em mim?”
Essa é uma pergunta psicológica.
E ela não precisa destruir a fé.
Também não precisa provar a fé.
Ela apenas abre outra porta.
Mas existe um perigo.
Quando encontramos uma imagem tão poderosa, podemos projetar nela aquilo que gostaríamos que ela fosse.
Podemos criar um Cristo à nossa imagem.
Um Cristo que pensa como nós.
Que concorda conosco.
Que condena quem nós condenamos.
Que confirma nossas ideias.
Que protege nossas certezas.
E então aquilo que deveria nos transformar começa apenas a nos confirmar.
Talvez seja uma das grandes dificuldades de qualquer experiência simbólica:
não confundir o símbolo com a nossa própria projeção sobre ele.
Porque o verdadeiro símbolo deveria nos surpreender.
Deveria trazer algo que ainda não sabemos.
Deveria ampliar nossa consciência.
E talvez seja aqui que a ideia de alteridade se torne tão importante.
Alteridade é reconhecer que existe um outro.
Um outro que não sou eu.
Uma pessoa que não pensa como eu.
Uma experiência que não cabe nas minhas explicações.
Uma parte de mim que eu ainda não conheço.
O inconsciente é outro.
A sombra é outra.
O próprio Self é maior do que o ego.
Por isso, talvez o encontro com o outro seja também uma oportunidade de encontro com aquilo que ainda não conhecemos em nós.
No fim, fiquei pensando que talvez o Evangelho possa ser visto como um mapa.
Um mapa cheio de imagens:
sementes,
água,
vinhas,
desertos,
pescadores,
ovelhas,
luz,
trevas,
cruz,
morte,
renascimento,
Reino.
Mas existe uma diferença entre possuir um mapa e caminhar pelo território.
Podemos conhecer todas as histórias e continuar sem conhecer a nós mesmos.
Podemos decorar palavras sobre amor e continuar incapazes de amar.
Podemos falar sobre perdão e continuar presos ao ressentimento.
Podemos falar sobre espiritualidade e continuar completamente afastados do próprio corpo.
Podemos conhecer o caminho e nunca percorrê-lo.
Talvez seja esse um dos riscos de toda religião, de toda teoria e até de toda psicologia:
confundir o mapa com o território.
O mapa pode nos orientar.
Mas ele não pode caminhar por nós.
E talvez a mensagem mais bonita que encontrei nesses primeiros capítulos seja justamente essa:
o Reino não precisa ser encontrado como quem encontra um endereço.
Talvez ele precise ser reconhecido.
Reconhecido quando conseguimos escutar aquilo que nossa consciência ainda não queria ouvir.
Quando conseguimos olhar para nossa sombra sem precisar expulsá-la.
Quando conseguimos sustentar nossos opostos.
Quando conseguimos encontrar o outro sem transformá-lo numa extensão de nós mesmos.
Quando conseguimos perceber que a vida interior não é um lugar de respostas prontas, mas de encontro.
E talvez seja isso que a individuação nos pede:
não que nos tornemos perfeitos,
mas que nos tornemos inteiros.
Talvez Cristo, então, não seja apenas alguém que devemos encontrar no céu.
Talvez seja também uma imagem que nos convida a olhar para dentro.
E talvez a pergunta que permaneça, depois de tudo isso, seja muito simples:
Se o Reino está dentro e fora de nós, o que existe dentro de nós que ainda não aprendemos a enxergar?
Talvez seja aí que começa a verdadeira jornada.
Karina Lima Juremeira - Reflexões que surgiram no núcleo de estudos - Travessia simbólica
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